Montag, 24. März 2008

Primavera



Imagem: Pixabay
A primavera em Bremen começou oficialmente dia 21. As primeiras flores aparecem muito devagarzinho mesmo... Devem estar, assim como nós, meio sem vontade de sair nesse vento frio, nesse tempo chuvoso, às vezes com neve e chuva de granizo. Todos por aqui reclamam que o inverno não é frio o bastante e agora na primavera, todos gostariam de ver o sol e flores, muitas flores.



Ainda me lembro da primeira vez em que de fato vi a primavera aqui. Depois de ter vivido nesta cidade por quase quatro anos, estava de saco cheio da Alemanha. De malas prontas, só pensava mesmo em voltar a minha terra, onde primavera nem existe. E mesmo assim, me vi conversando com um amigo alemão, que admira todas as estações do ano com igual loucura, e em algum ponto da conversa ele falou o seguinte:



- Você já viu como a primavera está chegando este ano? Nunca vi nada igual... Olhe pra essas cerejeiras como estão floridas... que tons de lilás... lilás é uma cor da qual as pessoas quase nunca falam. A última vez que vi uma cerejeira florida assim foi há exatamente um ano atrás.



Meu amigo estava tão absorvido em seus pensamentos, admirando e falando das plantas e sua cores, que não pude deixar de colorir meu olhar pra esta cidade. E foi de fato a primeira vez que percebi, que por mais que estivesse louca pra entrar naquele avião que me levaria de volta ao meu mundo, iria sentir muita falta de Bremen.



Ah, a primavera... eu aprendi muito sobre ela ainda muito menina, na escola. A gente sempre aprendia sobre todas as estações do ano. A forma totalmente fora de contexto, importada de países muito mais frios que o meu, na qual meus textos didáticos a ilustravam, presenteavam-na com uma aura etérea, mágica, colorida, irreal para mim. Depois de vir parar aqui, aprendi o que aquilo tudo significava. 

Aquela conversa com meu amigo alemão, que cresceu vivendo a primavera a cada ano, mas que ainda assim a reconhecia e admirava, me fez sentir um pouco fútil, meio blasé com as belezas do mundo e foi impossível evitar a tão conhecida culpa: como foi que eu consegui estar aqui, por quase quatro anos, e nunca dar o devido valor a cada flor que desabrochava depois de um longo inverno. Como foi que consegui simplesmente continuar meu caminho automático pro trabalho a cada dia, sem perceber que árvores completamente secas por causa do terrível inverno, de repente adquiriam uma penugem verde clara que se tornava cada vez mais densa, até que um dia um flor, com o mais contrastante rosa, vermelho, amarelo ou lilás aparecesse nelas.



A primavera em Bremen é algo muito mágico. Ela é muito esperada por todos, porque com ela vem não só as cores, mas também, os dias nos quais apesar do frio, o sol brilha intensamente e por muito mais tempo. A primavera convida a um passeio no parque, a um sorvete com a família, as brincadeiras na rua. Os dias se tornam mais longos e as pessoas sorriem umas para as outras sem razão. Este ano a primavera parece não querer chegar em Bremen. Isso aumenta a ansiedade geral. E pro alemão, tão acostumado a ter tudo certinho e planejado de acordo com um calendário rigoroso, vem uma inquietação com a qual é difícil de lidar. A primavera tem de estar aqui a tempo, na hora marcada, como de costume. Que se dane o efeito estufa e todas as catástrofes ambientais!!! 

Deve ser por isso, que hoje pela manha, percebi vários carros da prefeitura carregados de flores de diversos tipos e cores circulando pelas ruas. E mais tarde, essas mesmas flores estavam plantadas, da forma mais ordeira possível, pelos diversos canteiros da cidade.

Donnerstag, 13. März 2008

A Arte da Grosseria

Imagem: Pixabay


Certos tipos de comportamento são inaceitáveis e a depender dos ânimos dos envolvidos podem até levar a confrontação física. Todo mundo concorda que nunca se deve colocar a mãe de ninguém no meio se a intenção não for partir pra briga, no entanto, salvo esses graves extremos envolvendo família, religião e time de futebol, como saber qual o limite do ouvir calado e do partir pro ataque com mãe e tudo? A resposta pra isso é outra vez muito cultural.



Aos poucos venho percebendo que ser grosso tem hora, lugar e situação certa e que essas variáveis são bem diferentes no Brasil e na Alemanha. Pra falar a verdade, acho que varia inclusive dentro do território nacional. Já me aconteceu de eu deliberadamente ser grossa com alguém aqui que pareceu não se ofender nem um pouquinho e outras situações nas quais eu pensei "oops, aí vai ter briga" e no final não teve nada. Podem ter certeza, aqui em Bremen, grosseria é uma arte.



Me lembro bem do dia em que, durante uma aula, começamos a falar da biblioteca central da cidade que na época tinha sido reformada e estava lindíssima. Alguns alunos concordaram e um determinado rapaz disse nunca ter colocado os pés na tal biblioteca. Imediatamente, uma colega de classe revidou: "Conte-me uma novidade. Quem não sabe que você é mesmo analfabeto?". Esses alunos se conheciam a não mais de que um mês então eu fiquei totalmente tensa, me coloquei em guarda, pronta pra agir e tentar graciosamente por fim a discussão, que na minha cabeça, já era mais do que certo que iria acontecer. No entanto, o rapaz deu uma olhada feia para a tal colega e a situação acabou aí. O mais interessante é que logo depois, numa atividade em pares, eles trabalharam juntos sem problema e concluíram a tarefa sem maiores conflitos ao ponto de fazerem "high five" no final quando constataram que acertaram a maior parte do exercício.



Esses alemães me confundem. Acho que o grande problema aqui é mesmo o grito. Não se deve falar alto, porque isso sim, assusta. Se você gritar elogios a alguém, a pessoa provavelmente não saberá o fazer e vai remoer aquilo por meses. No entanto um bom insulto num tom de voz agradável tem seu lugar. É bem ouvido, processado, avaliado e superado rapidamente. Acho que depois de tantas guerras o subconsciente coletivo aqui simplesmente endureceu. Se preparou pra aguentar tudo, ser ofendido e humilhado. Desde que, é claro em decibéis aceitáveis.



 P.S No livro “How to be a Kraut” do jornalista inglês Roger Boyes, ele fala também sobre isso. Segundo ele Berlim não só é a capital da Alemanha, como também é a capital européia da grosseria. Segundo ele se vocês forem a Berlim, devem inclusive evitar dizer "Boa tarde", "Por favor", etc porque isso seria um sinal de fraqueza. O livro é uma espécie de "Um Brasileiro em Berlim" sobro o ponto de vista de um inglês e é hilário. Se tiverem a oportunidade, leiam.

Montag, 3. März 2008

Carta à Salvador


Querida Salvador,


Hoje faz quase três meses que eu fui embora e desde o dia em que saí daí, já senti saudades de você. Sei que nos meus últimos dias por aí não fui exatamente a melhor das companhias; reclamei muito, só pensava em Bremen e devo com certeza ter sido injusta com você em muitos momentos.

Por isso resolvi te escrever. Pra te falar que apesar dos meus humores normais de ser humano, que apesar de parecer sempre insatisfeita quando estou com você, reclamar de suas ruas, de seus prefeitos, de seus pivetes, de seu estranhamente adorado Pelourinho (alguma coisa na minha alma negra ainda se contorce de dor toda vez que passo por ali) eu te amo muito e sinto muito sua falta.

Vivi muitos anos de minha vida com você e depois que desejei ver outras cidades, conhecer outras culturas, pisar outros continentes, descobri o quanto te amo de verdade. Toda vez que volto, me sinto completamente acolhida, bem recebida, totalmente envolvida no seu calor que não sei como, eu adoro. Depois de 31 anos de vida, ainda me emociono muitas vezes quando passo pela igreja de Santana no Rio Vermelho em direção á Ondina. Aquele mar, e o céu azulíssimo faz qualquer pessoa passar a acreditar que algo maravilhoso e extraordinário existe neste mundo. Adoro a descida da Contorno, com seu mar imenso, seus prédios antigos do outro lado, seus barulhos indicando que tem vida, muita vida ali.

Você é minha cidade mãe, que me ensinou a falar assim, quase cantando e que tem essa gente linda que trabalha feito cão, mas que sempre, sempre tem um tempinho pros amigos, pra um cineminha, uma prainha, uma cervejinha. E onde tudo é assim mesmo carinhosinho, no diminutivo. Te  amo minha cidade, você é mesmo minha salvadora. E apesar de estar me entendendo cada vez melhor com Bremen, quero que você saiba que ninguém me acolhe, recebe e entende como você. Com você sou verdadeiramente quem eu sou: Cris Oliveira, professora de inglês, mulher de muitos amigos, meio maluca, amante de acarajé e cerveja gelada, frequentadora de Dinha, sofredora do Baêa sem "h" e orgulhosa de ser sua filha.