Samstag, 26. Februar 2011

Carnaval



Minha resposta era sempre um grande não toda vez que me perguntavam se eu gostava de carnaval. Mas por alguma razão misteriosa qualquer, sempre me encontrava em Ondina em algum momento da folia, me acabando de dançar atrás de algum trio elétrico bem infame.



Depois que vim parar aqui em Bremen parei de tentar entender se eu gosto ou não desse evento, porque ele simplesmente deixou de fazer parte de minha vida. Até que de repente eu descubro que aqui em Bremen tem um carnaval de samba que vem ficando maior a cada ano que passa. Finalmente compreendi porque os Saltimbancos queriam vir pra cá... 



Hoje é carnaval aqui em Bremen. Grupos percussivos de diversas partes da cidade e da Europa, desfilam pelo centro da cidade, tentando batucar como nas escolas de samba do Brasil.  Pessoas fantasiadas dançando pelas ruas, confundem as cabeças de qualquer um que assista esse espetáculo: um frio danado te confirma que você está em Bremen, mas as fantasias e os rostos pintados te fazem pensar que isso aqui poderia ser Mardi Gras talvéz em New Orleans, a música por outro lado, te dá a ligeira impressão de estar no Brasil.



Muitas vezes quando se mora longe de nossa terra, a gente desenvolve uma fome extraordinária por tudo que é nosso. Sempre gostei de nossa cultura, mas de fato ao chegar aqui fiquei enloquecida de paixão por ela. O carnaval pertence ao mundo católico, mas o samba é nosso. Ver um desfile carnavalesco movido à samba no centro de uma cidade protestante alemã, me deixa com vontade de dizer que eu adoro carnaval. Mas enfim, vou parar de tentar solucionar esse mistério e cair na batucada alemã. Se me lembar, quarta-feira de cinzas volto aqui pra dizer se valeu a pena.
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P.S. O título desse post leva à página oficial do carnaval de Bremen. Está em alemão, mas as fotos são bonitas. 

Mittwoch, 16. Februar 2011

Privacidade Parte II

Voltando ao assunto de como as pessoas lidam com sua privacidade aqui na Alemanha, recentemente ouvi essa frase: "Isso é uma invasão de minha privacidade. Não quero dizer nada sobre esse assunto." Dou três chances pra vocês tentarem descobrir quem falou isso. Não foi em um interrogatório policial. Não foi em uma discussão política e nem em um filme policial cliché. Eu ouvi esta frase de um garoto de 13 anos, na sala de aula quando perguntei "What do you do in your free time?" (O que você faz no seu tempo livre?).
 
Antes que vocês digam que este guri estava apenas de brincadeira eu garanto a vocês que ele estava apenas reproduzindo muito bem o peso e valor que as pessoas aqui nesta cultura dão à sua privacidade. Quando comecei a ensinar aqui eu ficava irritada e confusa depois de cada aula. Eu simplesmente não entendia porque a mesma estrutura de aula que fazia o maior sucesso no Brasil era um grande fracasso aqui. 
Em Salvador, era raro ter uma turma que não se empolgasse com atividades que os fizessem levantar, andar pela sala falando uns com os outros  e falando de si mesmos. Aqui, para essas atividades funcionarem, é necessário uma longa preparação. Já percebi que elas só funcionam bem depois de muitas outras para se conhecer e criar um certo clima de intimidade no grupo. Além disso, se você e a turma ainda não se conhecem muito bem, sempre ajuda se você deixar bem claro no início de uma atividade dessas, que você não está nem aí pra vida pessoal deles e que eles devem inventar respostas se quiserem.

Comecei a dar essa instrução antes de cada atividade que tivesse pergunta pessoal, de qualquer tipo por mais inocente que fosse. Comecei também a dar informações sobre mim mesma que eram obviamente inventadas, só pra estabelecer um exemplo. Tipo, em uma aula eu dizia que tinha nascido aqui, em outra que tinha nascido no Brasil e por aí vai. De repente, um ou outro começa a se interessar e de fato querer saber. Cris, falando sério agora: você nasceu onde mesmo? Quando essa pergunta surge, na qual eles de fato querem saber alguma coisa pessoal sua, você sabe que o grupo atingiu aquele nível de abertura necessário pra atividades comunicativas darem certo, ou o mesmo nível do segundo dia de aula no Brasil. 

Um outro aspecto importante é assegurar às pessoas que a privacidade delas está protegida com você. Eu gosto de fazer uma lista de contato nas minhas turmas para que, caso aconteça alguma emergência, a gente possa entrar em contato um com os outros facilmente. Antes de oferecem seus dados, os alunos sempre gostam de ouvir que eu não vou passar a lista pra mais ninguém e que ao invés de jogar aquele papel no lixo, que eu darei fim a ele no picotador de papel assim que o curso acabar. É um monte de detalhe, pra quem vem de uma cultura onde basicamente ninguém tá nem aí com essa coisa, mas vale a pena passar por isso pra que no final das contas o ambiente de sala de aula seja relaxado e para evitar que os alunos achem que você é um interrogador e que eles estão de volta aos tempos da Alemanha dividida.

Isso é um caso sério mesmo. Por questões históricas esse povo tem trauma de ser seguido, observado, interrogado. A Alemanha já viveu vários momentos em que privacidade não era um direito e sim apenas um conceito distante e por isso hoje, que de fato é possível, ter uma certa privacidade, eles a protegem com unhas e dentes nas menores coisas. Por exemplo, ninguém te pergunta qual a sua religião, pra quem você votou, se você é casado ou solteiro, se tem filho. 
Pouca gente se exaspera quando descobre que você não tem celular ou quando te liga e ele está desligado. Se você liga pro trabalho e diz que está doente e não pode ir trabalhar, ninguém fica te perguntando o que você tem, você conta se quiser. Inclusive determinadas perguntas no ambiente de trabalho podem até gerar processos de invasão de privacidade. A precaução com a privacidade no terreno virtual também beira a paranóia e sempre me intrigou, já que a Alemanha é campeã em produção e exportação de tecnologia que ela mesma é cautelosa ao usar. 

Para resumir a conversa, tem um velho ditado que diz: "Quando em Roma faça como os romanos". Já que estou na Alemanha, aprendi a ser mais cautelosa e cuidar mais da minha privacidade. Acho que encontrei o caminho do meio entre a super exposição brasileira e a super paranóia alemã. E o ideal pra grande parte das coisas desse mundo não é mesmo poder apreciar de tudo com moderação?

Sonntag, 13. Februar 2011

Bremer Dom


Pra quem não acredita em mim quando eu digo que Bremen é linda, aqui está mais uma prova. Uma foto tirada recentemente em um dia friozinho, mas de muito sol. Beleza de verdade, sem truques nem photoshop. Nem uma câmera mais ou menos impediu essa cidade de sair bem na foto. Esta são as torres da catedral de Bremen, a St. Petri Dom.

Samstag, 5. Februar 2011

Privacidade

Essa semana me deu uma coisa e eu troquei a imagem de um de meus posts. O problema é que se tratava de uma foto minha, na qual eu estava vestindo um top tomara que caia e bati a foto de um ângulo que só dava pra ver meus ombros. O efeito final ficou parecendo que eu estava sem roupa. Apesar da foto ter saído super legal e de ter ficado perfeita pro post, resolvi tirar do blog depois de refletir um pouco sobre como as pessoas aqui encaram questões de privacidade e auto exposição na internet. Isso veio porque no mês passado li um artigo em uma revista daqui que falava dos perigos de se usar Facbeook, Twitter e Co. e de pessoalmente contribuir com os invasores de privacidade por se expor demais na internet. O artigo expressava bem o que é uma preocupação constante do alemão: o medo de que sua privacidade seja invadida e seus dados repassados a terceiros através desses sites que viraram parte de nossa vida diária. 



Em termos de exposição, eu me considero bem coluna do meio, ou seja: sei que estou longe de ser a pessoa mais reservada do planeta, afinal quem não quer aparecer de jeito nenhum não tem blog, não é mesmo? Por outro lado, não sou a pessoa mais super exposta do mundo. No entanto, o pavor que alguns alemães sentem da exposição cibernética, tem me deixado meio paranóica. Fico me perguntando se de repente não estou cega sem saber o tamanho do risco que estou correndo ao me conectar.



Quando comparo meus amigos brasileiros com os alemães, minha confusão só aumenta. Os brasileiros fazem uso de absolutamente TODAS as tecnologias e redes sociais disponíveis no mundo sem o menor receio. Eu adoro, claro porque posso ver todas as fotos, saber de tudo que tá se passando e aprender. Sim, porque foram meus amigos brasileiros que me apresentaram ao Orkut e mais tarde ao Facebook. Se não fosse por um deles, estaria até hoje sem entender que cargas d'água era Twitter. Através deste mesmo amigo, conheci há pouco tempo o termo Formspring. Ainda não entendi direito pra que isso pode ser útil na vida de um ser humano, mas pelo menos me sinto menos ignorante por pelo menos já ter ouvido falar no nome da coisa. 



Meus amigos brasileiros pelo visto não estão nem aí. Eles tem blog, fotolog, Formspring, Twitter, Facebook, Orkut, Skype, Myspace, emails mil, fazem compras online, usam internet banking e tem um celular de cada operadora atuante no país. O que me leva a achar que se essa tecnologia toda fosse assim tão malígna, muita gente já teria se dado muito mal. No entanto parece que até agora a única incoveniência que essa exposição toda causa são alguns emails indesejáveis que vão parar na lixeira e acabou.



Meus amigos alemães, por outro lado, ficam chatedos de verdade se você coloca uma foto da galera toda comportada no Facebook, por exemplo. Já ouvi estórias escabrosas de amizades que terminaram porque uma pessoa colocou uma foto da outra no StudiVZ (uma espécie de Orkut daqui), ou porque escreveu no status do Facebook "o encontro com fulaninho ontem no café tal foi ótimo". Eu respeito muito a privacidade de cada um e por isso depois de já ter visto muita cena feia por aqui, resolvi que não vale a pena tirar minha câmera da bolsa pra fazer foto de ninguém aqui. 

Não tiro foto de alemão, não comento sobre eles em site nenhum e no Facebook, me limito a aceitá-los quando me convidam, mas nunca procuro nem escrevo pra ninguém e só respondo o que me perguntam. Essa paranóia tira um pouco a graça e o sentido da coisa, mas não tenho energia pra ter discussões filosóficas sobre o valor da privacidade depois de cada visita ao Facebook, por isso deixa quieto.



As coisas ficam ainda mais confusas pra mim quando vejo que muitas vezes as mesmas pessoas que se chateiam quando descobrem que alguém divulgou no Facebook fotos na qual aparecem no cantinho, não pensam duas vezes em se registrarem em sites especializados em busca de relacionamento amoroso. Sites nos quais a pessoa, não só voluntaria informações pessoais, como também efetivamente acabam se encontrando com pessoas completamente desconhecidas. Isso faz sentido? Qual a diferença? Será que alguém pode me explicar.



Eu pessoalmente só encontro uma justificativa: Em um país onde a criminalidade não é assim tão grande que você tenha de viver com medo de ser alvo de sequestrador, essa preocupação exagerada com a privacidade só pode significar que essas pessoas estão andando por aí se comportando muito mal. Andam tão preocupadas com a privacidade porque tem muita coisa a esconder, desde bebedeiras descontroladas e constrangedoras a casos de infidelidade e traições escabrosas. Se além de ter tanto segredo a pessoa ainda der azar de sair sempre muito feia nas fotos, entendo completamente essa recusa de se expor. Só tenho essa explicão. Ou não estou conseguido exergar outras questões muito mais complexas? Quem me exclarece?