Sonntag, 29. April 2012

Aceleradinha



Eu fechei o mês de março com chave de ouro. Vários itens importantes de minha interminável lista de coisinhas a fazer puderam ser riscados. Só quem é viciado em listas vai entender a satisfação que eu senti ao poder riscar itens que estavam há meses me impedindo de dormir sossegada arrancar a folha velha do caderno e respirar aliviada com a sensação de mais um dever cumprido. Mas enfim consegui. Afffffe!! Que alívio. Entre as coisas a fazer que durante meses emperraram minha lista, estavam:

- dar entrada em meu pedido de cidadania
- concluir meu mestrado e
- fazer minha carteira de motorista alemã. 

Quando março terminou e eu percebi que tinha conseguido riscar essas três coisas de minha lista, fiquei super feliz e decidi que eu merecia um presente. Resolvi fazer uma pequena viagem com meu amor e pra comemorar minha recém- tirada carteira de motorista. Resolvemos ir de carro, comigo no volante, é claro. Aliás, de carro não, porque aquilo não era mais um carro. Alugamos um Mercedes, que não me lembro exatamente qual era o modelo, porque nunca fui muito ligada em carro, mas me lembro que era algum Mercedes classe "C". Mas não classe "C" que vem depois da "A" e "B", mas classe "C" que com certeza deve significar algo como "corre como a porra!". 

Como já tinha dito, nunca fui muito ligada em carro e nunca gostei muito de dirigir. Pra mim, carro sempre foi um simples meio de transporte e por isso nunca entendi direito a galera que curte falar de carro e admira piloto. Mas de repente, com meu Mercedes alugado fiquei imaginando minha nova carreira como pilota de Fórmula 1. Aliás, com uma máquina daquelas, eu não teria problema nenhum em virar motorista em tempo integral. De repente comecei a entender porque tanta gente é apaixonada por carro e fiquei imaginando que se tivesse um daqueles ia ter de abandonar meu emprego pra viver só admirando e curtindo meu carrão e com o tempo eu não teria outro papo. Ou seja, viraria uma verdadeira babaca. Tá vendo aí? Deus sabe o que faz...

Verdade seja dita, ter começado de repente a achar graça em dirigir, não foi causado apenas pela paixonite que eu tive pelo carrão. Teve também o fato de que o trânsito alemão é bem diferente do brasileiro. Tudo é tão bem organizado (e as pessoas no geral conhecem bem e seguem as regras) que é praticamente impossível você criar um acidente. E as estradas? Essas aí são tão lisinhas que você não sente nem um tombinho por mais leve que seja. Ao sinal da mínima impefeição no asfalto, eles começam logo a consertar. Com estradas perfeitas assim, não é de se admirar que a velocidade nas auto-estradas em muitos trechos não sejam limitadas. Existe sim, um limite mínimo recomendado (120 km/h), mas o limite máximo quem determina é o carro e a habilidade do motorista. E eu meti o pé! acelerei até 200 km/h e então comecei a me borrar de medo quando sentia carros passando por mim a 230, 250 km/h. Diminuí pra 180 e essa foi minha velocidade média durante a viagem. Nos trechos nos quais eu era obrigada a diminuir pra 120 (onde haviam obras, por exemplo), ficava com a sensação de estar dirigindo super devagar - como se estivesse indo a 60 km/h.

Adorei minha experiência com a velocidade nas rodovias alemãs e comecei até a achar que dirigir é divertido. Mas hoje também posso entender melhor porque eu não gostava disso tudo antes. Sem querer cuspir no prato que comi, e ainda como, desafio qualquer um a gostar de dirigir diariamente um Fiat UNO basicão e sem ar condicionado desviando dos buracos no trânsito de Salvador.
O carro que me fez gostar de dirigir

Eu feliz da vida com meu carrão por dois dias

Sonntag, 8. April 2012

O que é que a Bahia tem?



Será que alguém pode me esclarecer uma coisa? Qual o problema do Brasil com a Bahia? Peraí, não quero que esse texto dê a impressão errada, então deixa eu explicar como foi que eu cheguei até aqui. Nesses meus nove anos de Alemanha, conheci muito brasileiro, que assim como eu, resolveu ir experimentar a vida em terras Germânicas. Muitos desses compatriotas, foram verdadeiras bençãos em minha vida. Pessoas legais, sensíveis, bonitas de todas as formas que me ensinam muito sobre a vida e sobre o próprio Brasil.

Ao mesmo tempo já contei aqui no blog que também já tive muitos encontros estranhos com outros brasileiros. Eu classifico muitos desses encontros assim, porque infelizmente alguns conterrâneos não tem vergonha de se mostrar com toda sorte de preconceitos. Para piorar as coisas, muitos de nós brasileiros, tem mania de confundir bisbilhotice com simpatia e falta de se mancol com autenticidade. Por exemplo, tenho pavor a gente que fica insistindo quando a resposta da pergunta "Você tem filhos" é "não". "Porque não?" ,"Estão esperando o que?", Você tem de se ligar porque você já passou dos trinta" são as minhas favoritas da lista das bisbilhotices disfarçadas de simpatia. No quesito da falta de semacol nada é mais impressionante do que ouvir de uma carioca dizer, depois de me ouvir falando alemão, que "assim que você abriu a boca eu já sabia que você era baiana. O sotaque de vocês é tão forte que vocês falam um alemão todo arrastado". "Ah tá!" Pensei cá com meus botões, "então é assim que se formam os sotaques? Obrigada senhora estudante de economia pela aula de linguística." Na moral, se você não sabe uma coisa, é sempre melhor calar a boca. 

E eu aproveito e pergunto: só baiano tem sotaque ao falar uma língua estrangeira? E se for assim, qual é o problema? O que faz as pessoas acreditarem que nosso sotaque é mais estranho do que o dos paulistas, goianos, mineiros, gaúchos ou catarinenses? Em nove anos de Alemanha, nunca ouvi nenhum falante nativo se incomodar com o sotaque de nenhum baiano por ser arrastado demais. Isso é realmente implicação de brasileiro com brasileiro.

Essa mania que o Brasil tem de pegar no pé de baiano tem me irritado bastante. Minha querida amiga Ângela, que já morou em vários cantos do Brasil, tem mil estórias pra contar de vários lugares onde morou, sobre essa implicância que o Brasil tem com a gente. Suas experiências com esse tipo de preconceito vão desde pessoas que fazem graça do seu sotaque até outras que acham que não há nada de errado em duvidar de sua capacidade profissional sem nunca ter realmente conhecido seu trabalho, só pelo fato de saber que ela é baiana.

Acho que estou muito incomodada com essa mania de brasileiro de esculhachar baiano porque sendo negra, nordestina, mulher e baiana acabo virando um prato cheio pros intolerantes e isso depois de um tempo fica chato pra caramba. De um em um os comentários preconceituosos vão enchendo o saco. E o meu já encheu a ponto de transbordar neste texto. Procuro não reclamar muito porque sei que minha situação ainda poderia ser pior: já imaginou se além de tudo isso eu ainda fosse lésbica, gorda, portadora de deficiência, idosa ou devota do candomblé? Aí é que tava ferrada mesmo...O mal é que tem gente por aí que jura que é legal, bacana, mente aberta, mas que vive falando coisas pouco críticas e o que é pior, estigmatizantes e limitadas.

Umas das coisas mais fantásticas do ser humano é a habilidade de filtrar nossos pensamentos antes deles virarem palavras. Sendo assim, porque não usar (bastante) esse dom? Muitas vezes guardar nosso comentários pra nós mesmos não é somente uma questão de educação e respeito ao próximo como também uma questão do mais puro bom senso. Estou cansada de gente achando tudo o que eu digo engraçado só por causa de meu sotaque. Gostaria muito de poder contar uma estória pra um grupo de brasileiros e saber que eles estão de fato ovindo o que eu estou dizendo e não anotando mentalmente cada som que eu produzo diferente e cada expressão que eles não conhecem pra ridicularizar depois. Queria ter o direito de dizer que estou cansada, porque sim, trabalho duro pra caramba, assim como todos na minha família e meus amigos ao meu redor, sem ter de ouvir alguma referência infame à preguiça, rede e água de coco.

Nós baianos temos muitos defeitos. Horríveis, irritantes, que dá vontade de bater em um ou sair gritando de raiva muitas vezes. Mas quer saber de uma? TODOS os brasileiros os tem e nem os que nos estigmatizam escapam dessa. Na moral viu, sem querer tirar onda, mas já tirando: O que muitos brasileiros percebem como abestalhação eu vejo como leveza, ondes eles enxergam falta de seriedade eu enxergo bom humor e simplicidade e onde eles ouvem uma intonação esquisita eu ouço música. Agora durmam com um barulho desses!

Desculpa esfarrapada

Nem consegui cumprir minha promessa de postar uma vez por dia no mês de fevereiro e o mês de março passou que nem senti. Estava óbvio que isso iria acontecer, mas mesmo assim eu prometi, porque eu gosto de planos estravagantes mesmo quando fica claro que são irrealizáveis. Fala a verdade: a vida não seria uma chatice se todos os nossos sonhos fossem sempre iguaizinhos à realidade?

Tentei, não deu certo, vamos ao plano B. Que dessa vez é de simplesmente voltar a postar quando der. Muitas vezes é justamente quando adaptamos nossas ambições e expectativas que as coisas boas acontecem em abundância. Com isso, fico aqui na espera ansiosa pelo meu próximo post.