Freitag, 8. März 2013

O direito de ser perua. Ou não.

Logo que cheguei lá na Alemanha há dez anos, percebi que era muito difícil ser  a mesma mulher que eu sempre fui. A minha maior dificuldade era com meus ataques de peruice. É que apesar de eu estar longe de ser uma perua de verdade (eu sou do tipo que vai pra rua de bob no cabelo se for preciso), eu definitivamente tenho meus momentos de liberar a diva que existe em mim. E ela é um espetáculo! Se amarra na cor rosa, bolsas, olho pintadão, gliter, esmalte de cor berrante e batom vermelho hemorragia. A minha perua, sempre esteve lá desde que eu era pequena e por mais que eu queira culpar meus pais por isso – afinal de contas eles foram meus primeiros modelos de gênero - sei que não ia colar. Eu explico porque não.



Minha mãe sempre foi uma mulher vaidosa, mas sem exageros. Sempre cuidou de si mesma sem ser escrava de modelos impostos pela mídia e sociedade. Parece discurso cliché, mas não é. Minha mãe saiu de uma cidadezinha do interior da Bahia aos 16 anos de idade pra tentar a vida na capital porque queria ganhar dinheiro e melhorar de vida. 

Conseguiu isso trabalhando em uma oficina mecânica onde também adquiriu experiência e conhecimento necessários para mais tarde abrir a sua própria. A oficina dela era especializada em vender peças e consertar, não carrinhos delicados e sim os motores diesel de veículos carga pesada como caminhões e tratores. Na época em que as mulheres de sua cidade se chocavam ao ver uma mulher dirigir, minha mãe chegava lá atrás do volante de uma caminhonete F1000. Foi ela quem me deu dois de meus brinquedos favoritos: uma boneca Barbie noiva e uma miniatura de escavadeira Caterpillar, presente do fabricante por ela ser a primeira oficina autorizada deles na Bahia. Pra mim, minha mãe é um dos melhores exemplos de emancipação feminina do mundo.



Meu pai, por sua vez, se interessava por roupas, fazia as unhas, limpeza de pele e cuidava do cabelo num tempo em que nem se sonhava falar de metrosexualismo. Ou seja, por puro acidente do destino, cresci em um ambiente no qual os esterótipos de gênero não encontravam muito reforço. Pelo menos não logo de cara. Digo que foi por acidente, porque meus pais vieram de famílias simples e não tiveram aceso a meios altamente intelectualizados. Eles estavam me fazendo um grande favor e nem sabiam. Apesar da pouca escolaridade de meus pais, eles me educaram de uma forma que alimentava minha autoconfiança enquanto menina, me moldaram para que eu crescesse com a certeza de que poderia ser dona de casa ou austronauta se eu assim desejasse e sempre me certificaram de que minhas escolhas de vida não deveriam ser limitadas pelo meu gênero. Acho que por isso nunca tive problemas com minha perua interior, que era dominante quando eu era criança, mas que foi ficando mais discreta com o passar dos anos. Nunca necessariamente me envergonhei nem me orgulhei dela. Ela sempre foi parte de mim, só isso. Bem natural.



Mas aí veio a Alemanha. Lá as mulheres são super fortes e emancipadas. Ser feminista é praticamente um imperativo para elas e eu as admiro muito por isso. Mas como às vezes acontece na Alemanha, boas idéias muitas vezes tem um gostinho amargo devido aos exageros e à tendência de muitos a julgar precipitadamente. Um grande número de mulheres alemães são tão convencidas de que encontraram a fórmula perfeita de ser mulher que acabam se comportando de forma desrespeitosa com outras companheiras. A perua que existe em mim, por exemplo, demorou muito até se sentir à vontade pra aparecer naquele ambiente.



A impressão que eu tenho é que quanto mais alto o círculo intelectual, maior preconceito uma mulher vaidosa vai encontrar em terras germânicas. Quando eu dava aula em Hemelingen, em uma escola pra adolescentes e jovens adultos em situação de risco, as meninas e mulheres se vestiam na moda, usavam maquiagem, pintavam as unhas e observavam nas roupas e cabelos umas das outras. Não raro eu também era alvo dessa observação, e assim como acontece no Brasil, elas me perguntavam onde eu tinha comprado meu casaco, elogiavam minhas botas etc.



Já na universidade o que imperava era a praticidade. Quase todas as professoras tinham cabelo curto, quase nenhuma tinha unhas longas ou pintadas, nenhuma usava salto alto e a maquiagem era quase imperceptível. Esse assunto também era meio tabu e quem se interessava por isso era imediatamente tachada de fútil e escrava da sociedade machista. Uma vez causei o maior rebu sem querer em uma aula porque revelei que quando criança eu era uma garota cor-de-rosa e que meus pais nem ligavam para isso. A galera discutiu, se enfureceu, questionaram os valores da cultura sul- americana patriarcal, machista. Eu só ouvindo, até ter uma chance de acrescentar toda essa estória que eu contei pra vocês aqui de como meus pais na verdade eram bem à frente de seu tempo nesse sentido. A maioria ficou morta de vergonha, mas muitos ainda inconformados, procuravam formas de justificar suas opiniões sem ter de admitir o óbvio: que seus preconceitos os levaram a julgar precipitadamente. Tenho certeza que as reações a minha estória foram um pouco mais enfáticas pelo fato de eu ser estrangeira. Uma mulher sul-americana  não correspondendo aos clichés de mulherzinha fútil e submissa apesar do visual fechativo para muitos é o fim.
 

A moral da estória pra mim é a seguinte: ao contrário do que a opinião geral espera e prefere ouvir, nem toda turca é submissa e reprimida porque usa um lenço que cobre os cabelos. Nem toda brasileira é escrava de uma sociedade machista porque se enfeita toda feito pavão e nem toda alemã é emancipada porque tem cabelo curto e usa roupas práticas.O importante é ter a liberdade de sermos a mulher que quisermos ser. Usando as sábias palavras da fantástica atriz Annette Bening "a coisa mais maravilhosa que eu sinto que posso dar a minha filha são escolhas." E aos filhos também, né? E você nem imaginam o quanto eu  sou feliz de saber que sou uma mulher com muitas, mas muitas escolhas mesmo.



Desejo a todas as pessoas que leem esse blog, um dia cheio de possibilidades, escolhas próprias e encontros livres de idéias estereotipadas. Sejam quem quiserem ser e respeitem o direito do outro de fazer o mesmo. A todos vocês, Feliz dia das mulheres!