Freitag, 20. Dezember 2013

Minha bolha cor de rosa



Toda vez que eu venho ao Brasil acabo ficando mais ativa nas redes sociais. Meus poucos amigos alemães que utilizam Facebook, vivem reclamando que eu só posto em português e eles não podem acompanhar nada. Mas eu tenho uma explicação: meus amigos brasileiros compartilham mais, comentam mais, curtem mais. Olhar o Facebook acaba sendo uma experiência massa, como um grande bate-papo com a galera.

Ao ficar mais ativa no Face (já peguei até intimidade, tá vendo?), comecei a perceber os tantos outros usos legais desse meio que não só brincar e ficar trocando bobagens com os amigos. Comecei a fazer parte de comunidades e grupos de discussão e com isso ler mais, conhecer mais, estudar mais. E não foi só isso. Quando perdi a timidez nas redes sociais e passei a comentar também, voltei a exercitar a habilidade de debater e de argumentar. Como se isso já não fosse muito bom, conheci muita gente bacana que hoje me arrisco até a chamar de amigos, apesar de alguns deles só conhecer mesmo pelas fotos disponibilizadas em suas páginas.

Isso é o que me dá a certeza de que atrás da imaterialidade do Facebook, existem pessoas de verdade, com estórias de vida, famílias, empregos, dramas e tudo mais, iguaizinhos a mim e a você. Essas pessoas, assim como nós, riem sofrem e se ofendem. Por isso eu realmente me assusto muito ao ver o nível de crueldade de certos comentários e posts no Facebook.

A sensação de segurança e anonimidade que as pessoas tem atrás de seus computadores muitas vezes lhes enchem de arrogância, então elas terminam por sentirem à vontade pra digitar coisas que não diriam da mesma forma se a conversa fosse cara a cara. E aí começa o festival dos horrores. É gente desejando a morte alheia, culpando vítimas de estupro por terem sido estupradas, dizendo que não viram racismo quando ele está mais do que óbvio, chamando vítimas de discriminação de paranóicas, falando que a luta feminista é mimimi e muita, mas muita baixaria mesmo.

Mesmo quando a pessoa tem um posicionamento que eu considere reacionário ou que de qualquer outra forma não coincida com meu ponto de vista, é interessante discutir. Na verdade esses são os verdadeiros debates. É importante ouvir outras visões de mundo, nem que isso sirva somente pra fortalecermos nossos argumentos. Mas tudo isso pode e deve ser feito com repeito, pelamordedeus!!!

Quando eu vejo a agressividade com a qual as pessoas reagem aos posts umas das outras eu percebo que todos esses anos eu vivi em uma bolha cor-de-rosa na qual só existiam amigos e pessoas tranquilas, que sabem discordar e expor suas opiniões contrárias sem ofender. De repente estou dando de cara com um mundo cruel, cheio de pessoas mal-educadas e insensíveis. Que triste, viu? Quero minha bolha de volta!

Dienstag, 17. Dezember 2013

Lidando com o racismo: os jovens do JCPM



Mês passado fui convidada para um bate-papo com os jovens do Instituto JCPM em Salvador. Este convite, que me pegou de surpresa e encheu de felicidade, me foi feito depois dos educadores do projeto terem trabalhado meu texto "Lidando com o racismo" em sala. Antes de ir falar com eles, eu já tinha lido as cartas que estes jovens escreveram para mim. Nelas, além de relatarem suas impressões sobre meu texto, eles me contaram  suas próprias experiências com racismo.



Lá fui eu então conhecer os jovens e falar com eles. Estava meio nervosa, sem saber o que esperar, mas me sentindo extremamente honrada pelo convite e ao mesmo tempo bem ciente do tamanho da responsabilidade que vinha com esta honra. Olhar para eles e ouvir o que tinham a dizer, me fez lembrar da adolescente que eu fui, cheia de energia, dilemas e inseguranças próprias dessa fase da vida e como se isso não fosse suficiente, ainda tendo de lidar com questões de preconceito. O encontro com eles me fez pensar muito sobre os processos que temos de passar ao crescer em uma sociedade hipócrita como a nossa. Depois da conversa com eles, fiquei pensando muito sobre o seguinte:



Questão de identidade racial

O brasileiro é um povo todo misturado. A gente cresce ouvindo isso a exaustão e é verdade mesmo: Somos misturados. No entanto, apesar dessa miscigenação toda, na maioria dos casos é possível identificar quem é negro e quem não é, tanto que há discriminação. Ou seja, crescemos ouvindo que somos iguais, mas o mundo nos diz que somos diferentes de uma forma bem negativa.


Como ninguém gosta de ser associado a coisa ruim, é natural que surjam jeitinhos de tentar minimizar a forma negativa como somos percebidos. É aí que entram as tão pervesas estratégias de branqueamento. Desta forma, muito negro acaba virando moreno, moreninho, cabo verde e por aí vai. Quando eu perguntei quem dentre eles se considerava negro, um número surpreendente de negros não   levantou a mão. É sem dúvida nenhuma uma pena que nossa educação social ainda não tenha encontrado formas de fortalecer a identidade racial de crianças e adolescentes para que ninguém precise se envergonhar de ser quem é.



Auto rejeição

Tanto nas cartas quanto no encontro, os jovens relataram suas experiências     chocantes     com o  racismo. Aqueles jovens, entre 16 e 24 anos, já foram seguidxs por seguranças de loja e shopping centers, negadxs atendimento em loja, ignoradxs quando tentavam obter algum serviço, abusadxs verbalmente com palavras tão duras que eu me recuso a repetir aqui e humilhadxs de diversas outras formas diferentes antes mesmo de se tornarem adultos no sentido pleno da palavra e da experiência. Não precisa ser nenhum gênio para entender quantos danos isso pode causar ao emocional e psicológico de um ser humano que cresce tendo de lidar com isso.



Da mesma forma, dá pra entender porque a indústria do alisamento/relaxamento de cabelos movimenta milhões em qualquer lugar do mundo. Tem mães por aí, que com a intenção nobre de proteger e cuidar, ficam contando os dias até finalmente poderem começar a relaxar os cabelos das filhas. E assim, ao invés de aprender a nos amarmos e aceitarmos como somos, acabamos por internalizar a idéia de que nosso cabelo é "ruim" e que precisa ser domado. 

Como se isso já não fosse suficientemente triste, constatei que muitos daqueles jovens negrxs consideram as palavras "negrx" e pretx" xingamentos. Ou seja, que triste crescer em uma sociedade que te ensina a rejeitar até mesmo os termos que definem sua identidade.

           

A negação do problema

Uma das formas mais maquiavélicas de garantir a perpetuação do racismo é negar que ele existe. Esta é uma estratégia cruel porque cega toda a sociedade para o problema e torna o seu combate tarefa impossível. Afinal de contas, como solucionar um problema que não existe? O mais lamentável é perceber que essa armadilha bem montada pega qualquer um, até mesmo nós negrxs e afro descendentes. Fiquei comovida ao ouvir um menino dizer que ele sempre achou que nunca tinha sido alvo de racismo, até darem início às discussões sobre o tema em sala. A partir daí ele começou a relembrar situações do passado e pode constatar que já tinha sido discriminado sim, inúmeras vezes.



O encontro com os educadores e jovens desse instituto foi uma experiência riquíssima em minha vida. Recebi muito carinho e tive a oportunidade de mais uma vez confirmar o quanto é importante despertar a atenção das pessoas para questões sociais e de identidade o quanto antes. É fundamental estimular as crianças desde bem cedo a se amarem e se aceitarem exatamente como são e a nunca duvidarem de sua importância e valor no mundo. 

Também é importante estimular o quanto antes o interesse em conhecer a própria história para melhor entender sua realidade atual. A pessoa que cresce sendo incentivada dessa forma, muito provavelmente se tornará um cidadão seguro, consciente de sua importância e sensível para as questões e dilemas de outros seres humanos. E não é assim que se forma uma sociedade verdadeiramente igualitária?



Para saber mais sobre o instituto cliquem aqui
Os jovens do IJCPM - foto de André Pacheco

Mittwoch, 11. Dezember 2013

Lidando com o racismo: de outra forma



Um dia, recebi uma ligação de Lubi perguntando se eu estava com tempo. "Sim, claro. Pode falar" e ele começou a me contar uma estória longa que a princípio eu não sabia bem onde ia chegar. Contou que lá no instituto onde ele trabalha, tem uma atividade chamada "Cinema Comentado". Nessa atividade, os jovens assistem um filme e depois discutem sobre os temas abordados. O filme escolhido pela equipe de educadores tinha sido "Escritores da Liberdade" (Freedom Writers) de Richard LaGravenese. Como eu até então ainda não conhecia o filme, ele prossegiu me dando um resumo do que se tratava.

O filme não é nenhuma super produção cinematográfica, mas impressiona por ser um estória surpreendente, baseada em fatos reais. Ele mostra uma professora jovem, recém-formada e bastante idealista, que vai trabalhar em uma escola multicultural na Califórnia em uma época (1992) em que os Estados Unidos estavam fervendo com conflitos raciais. Os alunos de sua turma, são (em sua grande maioria) adolescentes em situação de risco que só concordam um com os outros em duas coisas: primeiro, que todos os outros são inimigos e segundo que a escola é uma merda. Nesse cenário pra lá de hostil pra qualquer processo educacional, ela consegue ajudar esses jovens a mudar de atitude a ponto de virarem escritores.


Não queria mais contar tanto sobre o filme, porque acho que vocês deveriam assistir. É fantástico e inesquecível. É um desses que antes de começar a ver, a gente tem de ter certeza de que se tem muuuuuito lenço de papel por perto. Mas pra que eu possa explicar como essa experiência foi especial pra mim, tenho de contar um pouquinho mais sobre a história do filme, então quem não quiser ter o fator surpresa estragado, pare de ler agora . O que vem a seguir são spoilers.


Os jovens, no filme, são estimulados a ler um livro cuja história se passa bem distante da realidade deles, tanto no tempo, quanto geograficamente falando. No entanto, por também se tratar de uma história verídica, ela de certa forma se relaciona muito com a deles. Eles,  então escrevem cartas para uma personagem fundamental da estória e conseguem fazer com que sejam recebidas e lidas. Como se isso não fosse o bastante, conseguem trazê-la para uma conversa com eles.

Lubis me explicava tudo isso ao telefone e eu só no "ahãn", "sério?" "nossa" "que bacana" sem compreender direito onde ele queria chegar. Até que ele finalmente chega: "Então, nós levamos seu texto "Lidando como racismo" pra ler e debater com os meninos lá no instituto". Isso gerou uma série de discussões sobre o tema e aí surgiu a idéia de replicar com eles o ocorrido no filme. 

O que aconteceu depois foi simplesmente inacreditável.
 
Recebi mais ou menos 50 cartas à moda antiga, escritas com caneta e papel, com direito a envelopinhos coloridos, adesivinhos, coraçõeszinhos e floreszinhas desenhadas. Me emocionei. Isso é raro de se ver hoje em dia.


Como se isso já não fosse honra bastante, fui convidada a ir lá, conversar com eles. E o que aconteceu naquele dia, foi muito tocante. Tanto que vou precisar de mais um post pra contar pra vocês tudo que me marcou naquele dia.