Montag, 6. April 2015

Deprê



Imagem: Pixabay
Não consigo parar de pensar no caso do co-piloto Andreas Lubitz, que parecia ser um cara estável, ter uma vida equilibrada e uma carreira de sucesso e que ai vai lá e dá fim na própria vida levando consigo 150 pessoas. Para mim, essa estória bizarra desencadeou tantas reflexões que nem sei por onde começar. Esse papo vai ser super deprê, mas é isso mesmo. Não é sempre que dá pra ser leve e engraçadinha.

Eu adoro a vida na Alemanha, mas viver lá tem suas maravilhas e horrores, como em qualquer lugar do mundo. Um dos maiores horrores da vida lá, é o fato das pessoas acreditarem muito em meritrocracia, essa crença cruel e traiçoeira de que tudo que uma pessoa consegue na vida depende exclusivamente do próprio esforço. Claro, não tenho dúvida de que pra se ter sucesso em qualquer coisa é preciso correr atrás. Acho muito improvável que alguém consiga ter uma vida brilhante e maravilhosa sem levantar a bunda do sofá. Como os próprios alemães gostam de dizer “do nada vem nada”. Mas acreditar no extremo oposto, que todo sucesso da vida de alguém depende exclusivamente do quanto essa pessoa trabalha e produz é uma armadilha muito perigosa. 

Na Alemanha as pessoas se definem muito por suas trajetórias profissionais. Qualquer situação social pode se tornar um martírio pra quem está desempregado, que tem um emprego meia boca ou quando ainda se está meio inseguro, sem saber ao certo que rumo dar à carreira. Conversa fiada por aquelas bandas, muitas vezes parece interrogatório ou teste de orientação vocacional. Se você está aí na Alemanha, faça um experimento e me conte o resultado depois. Da próxima vez que for a uma festinha, puxe conversa com alguém e preste atenção quantas perguntas relacionadas a seu trabalho as pessoas fazem por minuto. Chega a ser cansativo.

Esse é mais um dos fatores que levam as pessoas a se sentirem cada vez mais pressionadas a alcançar cada vez mais profissionalmente e se sentirem extremamente frustradas caso seus planos não sigam aquela trajetória que traçaram.  Num cenário desses, não é de se espantar que cada vez mais pessoas sejam diagnosticadas com depressão naquele país e que esse diagnóstico atinja pessoas cada vez mais jovens. Hoje em dia 5% da população alemã convive com essa doença e sabe o que é pior? Somente metade dessas pessoas recebe tratamento e a culpa é da sociedade.

Alemão é um povo reservado e independente. O que no geral pode ser uma coisa boa, tem seu lado sombra também. Quem já está fragilizado, lutando com problemas  emocionais ou psicológicos encara uma barra ainda mais difícil se tiver de passar por isso de forma solitária, tentando ocultar dos familiares e de outras pessoas próximas pelo receio dos milhões de rótulos que podem vir em decorrência disso.

Saúde mental na Alemanha (aliás acho que em todo mundo ocidental e capitalista) em pleno 2015 ainda é muito rodeada de tabus. A essa altura do campeonato, pessoas sofrendo de depressão ainda são estigmatizadas como fracas e incapazes de resolver seus problemas, planos de saúde aumentam suas taxas se a pessoa revela que já se submeteu a tratamento psiquiátrico e empresas tem reservas em contratar alguém com esse tipo de histórico de saúde. Não é de se espantar que as pessoas tenham dificuldade em procurar  e admitir que precisam de ajuda profissional.

O próprio diagnóstico da depressão é dificultado por esse receio de se falar sobre a doença. Hoje em dia na Alemanha se fala muito sobre “Burnout Syndrom”, que segundo especialistas é uma  das muitas caras da depressão, mas que com esse nome estilizado acaba dando a impressão de que a pessoa que sofre dela é apenas alguém que tem uma demanda de trabalho fora do normal. Segundo o diretor da clínica de psiquiatria da universidade de Leipizig, professor Ulrich Hegerl, às vezes temos de dar nomes aos bois e chamar depressão de depressão.

Eu concordo com o prof. Essa coisa de ficar inventando nome chique pra disfarçar uma questão séria, só faz piorar as coisas. No final das contas são mais de dois milhões de pessoas depressivas e sem tratamento, sofrendo caladas e sozinhas por medo de serem taxadas de loucas, fracas, incompetentes, de perderem seus empregos e por aí vai. 

No Brasil o quadro não é muito diferente. Estima-se que 10% da população de nosso país sofra de depressão ou algum outro tipo de transtorno mental e a falta de informação e estrutura dificultam o diagnóstico e tratamento. Quantas vezes já ouvi aquele comentário infame “ah fulaninho/a tá com depressão” seguido de uma cara de deboche, ou “depressão é doença de rico” e  a pior de todas “vai trabalhar que a depressão passa”. Se a pessoa apesar disso tudo decide que precisa de um psicólogo ou psiquiatra onde é que encontra um? Só em centros e clínicas especializadas, o que em si não deveria ser uma coisa ruim, mas que no caso de uma doença tão estigmatizada só serve pra aumentar o clima de mistério que paira sobre ela, isolando e separando os pacientes que tem de conviver com ela.

Aí eu me pergunto quanta gente ainda terá de se auto destruir até nossa sociedade entender que depressão é doença e que como toda doença tem de ser tratada, acompanhada e controlada? Ninguém espera que alguém com hipertensão ou diabetes esconda a doença e lide com ela as escondidas e sem tratamento. Por que que com a depressão é assim? 

Acho que está mais do que na hora de se falar deste assunto de forma mais aberta e mais esclarecedora a fim de destruir todos os tabus e mitos que circundam essa doença. Conheço muita gente tanto na Alemanha quanto no Brasil, que teve de aprender a viver com a depressão ou outras doenças/ transtornos psicológicos e que está bem, graças ao acompanhamento que tem de profissionais qualificados. Alguém aí acha que pode estar precisando de acompanhamento psicológico? Conheço excelentes profissionais aqui e lá. Quem quiser o número é só falar.

Se tiverem um tempinho assitam esse vídeo que a Organização Mundial de Saúde fez em parceria com o escrito e ilustrador Matthew Johnstone. O vídeo tenta explicar como é viver com depressão, para que alguém que nunca teve possa entender um pouco como funciona. Infelizmente ainda não tem legenda em português, mas se alguém quiser muito é só pedir que eu traduzo.


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